Binarismos: Natural x Artificial

Esse artigo talvez seja o início de uma série que tratará sobre binarismos – essa tendência que temos de enxergar as coisas como pares de opostos. Além dessa mania ser bem limitadora, não são raras as vezes em que, com a ajuda do maniqueísmo (que também é binário), utilizamos esses códigos somente com o intuito de deslegitimar algo ou alguém, de maneira rasa e irredutível.

Natural x artificial

Talvez eu devesse começar definindo o que é artificial e o que é natural. Não o farei por dois motivos, primeiro porque esses dois conceitos só existem em oposição um ao outro e segundo porque eles são usados com objetivos  específicos e, portanto, de uma maneira bem maleável. Como minha intenção aqui não é construir um significado conciso para aplicá-lo posteriormente, mas sim analisar a forma como esse artifício é utilizado, não faz o menor sentido perder tempo com tais definições. Ao invés disso, tentarei me aproximar do que usualmente é considerado ‘natural’ e ‘artificial’, para, justamente, apontar a falta de concisão que as pessoas que os utilizam apresentam.

Quando alguém diz que algo é ‘natural’ imediatamente somos remetidos a algum aspecto ou comportamento da ‘natureza’. Apesar de muita gente acreditar que já superamos o pensamento judaico-cristão estrito, a ideia de natureza ainda está muito relacionada à criação do universo bíblico: o mundo perfeito, intocado e belo, antes do ser humano aparecer e impôr uma nova ordem. Essa nova ordem (ou desordem) é essencialmente ruim, pelo motivo óbvio de que é diferente da anterior, que seria essencialmente boa. Aqui começamos a perceber como ‘natureza’ ou ‘natural’ só fazem sentido em comparação ao ‘não natural’, assim como o ‘bom’ e o ‘ruim’ quando relacionados a um par binário como esse.

Paraíso – Roelandt Savery

Ok. Dito isto, vamos pensar no que, hoje em dia, é considerado ‘não natural’ ou ‘artificial’. Para nos afastarmos um pouco da perspectiva religiosa declarada, podemos dizer que ‘artificial’ é o conjunto de coisas e comportamentos feitos por seres humanos. Certo?

Errado. Existem muitas coisas feitas pelos seres humanos que são consideradas ‘naturais’. Além daquelas óbvias como comer e dormir, existem outras que frequentemente obtém esse título sem serem muito questionadas. Uma delas é a heterossexualidade. Por quê? Bom, como todas essas coisas ditas ‘naturais’, a explicação sempre vem ou de uma perspectiva religiosa declarada ou de uma visão pontual e não científica sobre a biologia (frequentemente referenciada por gente que nunca estudou nada do assunto) que, na verdade, pouca diferença têm entre si, pois são baseadas na mesma premissa da natureza sumo-bem (intocável, perfeita e essencialmente boa).

O que as pessoas que atuam nessas duas correntes tentam fazer é primeiro argumentar que determinado aspecto é natural para então convencer, por consequência imediata, que aquilo é bom e deve ser mantido ou retomado. Porém, o que elas acabam fazendo é primeiro se convencendo de que determinado aspecto é bom e deve ser mantido ou retomado para, então, buscar argumentos que convençam de que aquilo é natural. Parece um contrassenso, não?

Bem, seria um contrassenso se a intenção fosse realmente explicar alguma coisa, mas, em geral, o que se pretende é desqualificar certa característica ao mesmo tempo que se legitima outra, emitindo, dessa forma, um julgamento irredutível.

Na maior parte das vezes, essa estratégia é utilizada para manter os privilégios de determinado grupo. Esse é o caso do exemplo citado sobre a suposta ‘naturalidade’ da heterossexualidade,  como era (ou é?) o caso da suposta supremacia de raça, ou de outras infinitas baboseiras da psicologia evolucionista.

Bingo da psicologia evolucionista

Porém, esse binarismo maniqueísta também aparece com frequência na argumentação de grupos oprimidos. Existem feministas, por exemplo, que creem tanto na ‘natureza’ feminina quanto os machistas que as oprimem. Em alguns lugares, já ouvi argumentos contra a maquiagem e a depilação que são mais baseados na ‘naturalidade’ do rosto limpo e dos pelos corporais que na luta contra a imposição violenta de sua prática. Os grupos que defendem o parto natural também não ficam para trás, muitas vezes acusando as mulheres que escolhem a cesárea por ser um método ‘artificial’ de nascimento. E até quando se fala em favor do aborto essas bobagens aparecem.

Mas provavelmente o melhor exemplo de todos é a discussão sobre hábitos alimentares. Quem já acompanhou conversas sobre vegetarianismo provavelmente deve saber que um dos argumentos que mais rola é sobre a ‘natureza’ da alimentação humana. E nem dá pra saber quem é que o invoca com mais frequência, se são os ornívoros ou os vegetarianos.

Complete o discurso de acordo com seu almoço

Complete o discurso acima de acordo com seu almoço

Por fim, proponho um exercício que eu mesma ainda não internalizei o suficiente para não precisar mais de esforço. Toda vez que alguém julgar alguma ação sua com base na dicotomia natural x artificial, ao invés de perder tempo tentando justificar como sua posição é mais natural que a da outra pessoa, exponha essa dicotomia para ela e a destrua. Se for você quem estiver julgando algo dessa forma, então pare, respire, e tente achar pelo menos uma boa razão para tal conclusão. Se você não encontrar, então pode jogar seu pré conceito no lixo e começar a construir um novo.

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Pornografia feminista

Erika Lust - diretora

Há quase um ano, me deparei com um termo até então desconhecido para mim: pornografia feminista. A informação me chegou através de uma matéria da revista Época, que recebi por e-mail de uma amiga. Me interessei muito pelo assunto e comecei a buscar mais informações, mas mesmo depois de pesquisar e assistir a vários filmes ainda tenho a sensação de que caminho com com os pés bambos, principalmente porque pouco se discute o tema fora do círculo das próprias produtoras dos filmes. E é por isso que resolvi escrever esse artigo, para que mais gente possa entrar no debate e contribuir.

Pornografia sob uma nova perspectiva

Muito se fala do pornô tradicional e sua grande e inegável contribuição para a objetificação da mulher. Mais que isso, a pornografia mainstream, ao reforçar certos esteriótipos de gênero, acaba funcionando como catalisador da violência contra a mulher, especialmente no que toca à violência sexual (ver: pornografia como teoria, estupro como prática). E é em cima dessa construção que grupos feministas contra a pornografia se formam e militam.

Porém, devemos ter clareza que o problema da pornografia tradicional não é o sexo explícito, os corpos nus ou os closes ginecológicos; o problema é a maneira violenta e degradante que a mulher é retratada. Ou seja, o problema não é a pornografia, mas sim o machismo. É importante deixar isso claro para não cairmos em um discurso pudico, que acaba adotando uma posição anti-sexo ao invés de anti-sexista. Afinal, não será com burcas, cobrindo a mulher da cabeça aos pés, que o machismo será resolvido.

É nesse universo que o termo (que eu não gosto muito) “pornografia feminista” surge. Aliás, sua origem é concomitante à criação do “prêmio da pornografia feminista” (Feminist Porn Awards) por um sex-shop canadense, e é quase inexistente fora desse meio. Segundo o sítio das criadoras do evento, os critérios para a seleção dos vídeos são:

1) Devem contar com uma mulher na produção, roteiro, direção, etc. do trabalho;

2)Devem despertar o genuíno prazer feminino; e

3)Devem expandir os limites da representação sexual e desafiar os esteriótipos do pornô mainstream.

Portanto, o objetivo é claro: criação e incentivo a uma pornografia produzida por mulheres e destinada (necessariamente, porém não exclusivamente) a elas, questionando e oferecendo uma alternativa ao pornô tradicional.

Novos olhares, antigas relações de mercado

É inegável que a pornografia está carente de novos ângulos de visão. Mais que isso, é preciso combater o machismo que a permeia e desconstruir a ideia de que ele é inerente à representação cinematográfica do sexo. Sem dúvidas, a “pornografia feminista” desempenha esses papéis, e quanto a isso não tenho o que reclamar. Porém, ao contrário de algumas análises deslumbradas que tenho visto por aí, não dá para fechar os olhos e achar que o novo pornô é a salvação do planeta.

Apesar de pretender expandir os limites da representação sexual, o Feminist Porn Awards ainda se baseia na divisão binária de gêneros, quando assume que o único oposto a uma produção e público de homens, é uma produção e público de mulheres. Pior: uma das categorias de premiação se chama justamente “categoria queer“, o que revela que esse posicionamento não é fruto de ignorância, mas sim de uma escolha calculada. Em outras palavras, desconsidera-se a discussão de múltiplos gêneros para abrir uma caixinha onde ela pode ser escondida. (quem ficou por fora por não conhecer a discussão queer, dê uma olhada  aqui e aqui)

Além disso, o “pornô feminista” se propõe a desconstruir a representação degradante da mulher, ninguém falou em questionar padrões de beleza. Mesmo que não se veja atrizes ao estilo mainstream e que alguns vídeos (quase todos na categoria queer) retratem pessoas fora do padrão estético dominante, a grande maioria somente o reproduz.

Ademais, não podemos esquecer que o termo foi inventado por um sex-shop e, portanto, tem o intuito de fazer dinheiro. Não é nem um pouco raro encontrar, inclusive, diretoras que considerem a nova produção pornográfica como simples resposta à demanda de um novo mercado.

Feminist Porn Awards 2011

Onde encontrar os vídeos

Quem se interessar pelo assunto, provavelmente descobrirá quão difícil é encontrar os vídeos disponíveis na internet. Como trata-se de uma produção e consumo pequenos, há pouca coisa circulando fora do canadá e/ou gratuitamente. Mas, para poupar o trabalho de vocês, aqui está um blog que tem bastante material.

Evento: Feira de Troca – 25/02

Leia o manifesto da feira de troca e acesse o blog Prá Escambá para trocas via internet.

Monitoramento virtual

Hoje pela manhã, ao logar no gmail, fui informada de que o Google fará uma modificação em seus termos de privacidade. Quase todo mundo sabe que o Google é uma das empresas que mais armazena dados pessoais de seus usuários e isso tem gerado um debate interessante sobre vigilância na internet. Pessoalmente, sou uma ex-usuária google, que ainda mantém (ou mantinha!) um endereço no gmail para acompanhar algumas listas que, por serem muito movimentadas, atrapalhavam a dinâmica do riseup, meu atual servidor de e-mail.

E o que mudou? O que fizeram foi unificar os mais de 70 termos de privacidade que o Google tinha para cada um dos seus serviços em um só. Isso, além de facilitar trâmites judiciais, torna mais simples para o Google associar informações de usuários de diferentes serviços, melhorando seu banco de dados e, lógico, aumentando o lucro.

Mas talvez o mais interessante nem seja saber o que mudou, mas sim o que não mudou. Além de captar as palavras chave de todos os e-mails e dos termos de busca e de ter acesso ao tipo de sistema operacional e ao modelo de hardware, o Google também triangula as redes wireless ao seu redor para saber sua localização. Para quem utiliza internet via celular, ele ainda guarda os destinatários e horários de suas ligações telefônicas e identifica os dados dos SMS.

E o que o Google faz com isso? Basicamente, ele utiliza as informações pessoais para refinar os anúncios que aparecerão para cada pessoa, a partir de suas preferências. Isso faz com que o usuário seja muito mais propício a clicar em um desses anúncios e, assim, o Google fatura milhões e milhões diariamente. É engraçado como parece haver um certo orgulho no discurso do Google de que “nunca venderemos qualquer informação pessoal de nossos usuários”. É lógico que não, o lucro seria muito menor.

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É certo que, ao utilizarmos a internet, sempre haverá um elo na corrente de comunicação capaz de saber, por exemplo, os IPs aos quais nos conectamos. De certa forma, é impossível que ninguém tenha acesso àquilo que trabalhamos na rede, entretanto, o problema aqui não é somente ter acesso às informações, mas também armazená-las (o Google deixa bem claro que todas as suas informações são gravadas e se, por acaso, você quiser excluí-las, o máximo que podem fazer é apagá-las do disco em uso, o que estiver no backup nunca será excluído). Essa prática acaba por criar um imenso banco de dados mundial (cada vez mais detalhado), e isso é um prato cheio para a vigilância governamental. Todo mundo acha maravilhoso que a Polícia Federal, a partir de 2006, pôde capturar pedófilos através das informações caçadas no orkut, pelo menos até lembrar que, para isso, ela acabou tendo acesso irrestrito sobre todos os usuários da rede. De forma semelhante, o governo americano teve acesso, sem precisar de mandato judicial, a todas as informações de Jacob Appelbaum (voluntário da WikiLeaks e desenvolvedor do projeto Tor) e de mais 5.593 usuários do Google só no primeiro semestre de 2011. Se acrescentarmos ainda as requisições de governos de outros países, o número de pessoas que tiveram seus dados cedidos pela empresa, nesse período, passa dos 10.000.

É óbvio que nem todos esses usuários são pedófilos ou homicidas. O exemplo da caçada ao grupo WikiLeaks deixa claro como essa é uma arma usada contra qualquer pessoa ou grupo tido como “subversivo”. Lembro-me quando percebi que, durante debates em uma lista de e-mail feminista, havia pessoas que nunca usavam a palavra ‘aborto’ grafada por completo, para não correrem o risco de serem indexadas caso a informação fosse requisitada. Na época, achei um pouco paranoia, mas agora, alinhando  esses abusos de autoridade com as manobras judiciais de vigilância sobre o aborto, começo a acreditar que aquela era uma precaução a ser considerada.

O Google, é de se imaginar, não é o único a monitorar seus usuários. A Apple, o Yahoo, a Microsoft, e a AOL, apesar de não estamparem tanto a mídia, também praticam o mesmo jogo. Isso sem falar nas redes sociais, como o Facebook, que são um pepino mais retorcido ainda. Mas, antes que os preguimistas (mistura de preguiçosos e pessimistas) soltem a  velha constatação do “todos são maus, não há nada que se possa fazer”, acrescento que sim, senhoras e senhores, existem alternativas para quem as procura, e elas são variadíssimas.

Primeiro de tudo, convém configurar seu navegador (normalmente eles vem bem fraquinhos no que diz respeito a privacidade), isso significa ativar a limpeza de cookies ao desconectar e desabilitar os cookies de terceiros . Além disso, é possível instalar alguns complementos (no Firefox), como  GoogleSharing, ShareMeNot, https-everywhere, ad-block plus e noscript. Para um anonimato mais avançado, existe a rede Tor, que labirintifica a conexão entre seu computador e os servidores dos sítios que você acessa, tornando o rastreamento quase impossível (em contrapartida sua conexão provavelmente ficará um pouco mais lenta). Como buscador existe o Scroogle [update: parece que o scroogle já era, mas ainda tem o equivalente comercial Startpage] , que funciona através de uma rede de servidores que intermediam sua conexão com o Google, impossibilitando que a empresa te rastreie (ela encontrará o IP do Scroogle, não o seu). E para fugir dos servidores de e-mail enxeridos, o riseup é uma excelente alternativa.

Para além da justificativa preguimista, outra que escuto muito é  a dos preguinferentes (mistura de preguiçosos com indiferentes), que normalmente repelem as críticas com um “eu não me importo, não tenho nenhuma informação para esconder”. Aqui quase se escuta o eco das declarações de Eric Schmidt, diretor executivo do Google, ao ser questionado sobre a falta de privacidade da empresa: “if you have something that you don’t want anyone to know, maybe you shouldn’t be doing it in the first place” [se você tem alguma coisa que não quer que ninguém descubra, talvez você é que não deveria estar fazendo isso, em primeiro lugar]. Porém, veja como a discussão acaba sendo desviada quando se entra nesses mérito: ninguém está falando sobre ter algo ou não a esconder, o questionamento é quanto à privacidade. Uma pessoa tem toda a legitimidade, por exemplo, de ser contra a instalação de câmeras dentro de sua própria casa, e pouco importa se ela tem algo a esconder ou não, ela só não quer ser vigiada – vontade que não deveria ser tratada de forma tão alienígena assim. E o pior de tudo é que, ao mesmo tempo em que se repele o questionamento com esse discurso furado, as pessoas vão se acostumando ao monitoramento, à falta de privacidade, ao estreitamento da liberdade. Aos poucos, o controle se transforma em banal, a internet vira uma ferramenta de vigilância, e o indivíduo que critica vai passando de anormal e paranoico, a subversivo e terrorista.

-mais informações interessantes sobre o google: the problem with google
-artigo do Le Monde diplomatique sobre vigilância extrema na internet

Ameaça à liberdade na internet

Nesse momento, no congresso americano, dois projetos de lei contra pirataria estão sendo discutidos. Porém, diferente de outros intermedios legais americanos sobre o tema, essas leis, se aprovadas, terão um campo de ação tão amplo e inespecífico, que sites como a Wikipédia, por exemplo, facilmente seriam enquadrados e sairiam do ar, assim como qualquer lugar que publicasse links para essa página (buscadores ou redes sociais, por exemplo).

Por conta disso, diversos sítios tem protestado. Alguns, como a wikipedia, tiraram sua página do ar, outros, como o wordpress e o riseup, usaram como capa chamadas (tão criativas quanto apocalípticas) contra os projetos de lei, e até os mais tímidos, como o google, não deixaram de escrever uma nota de rodapé.

Disfarçados com uma máscara de antipirataria, e aproveitando essa onda de paranóia coletiva, esses projetos, se aprovados, colocarão em prática a censura generalizada do meio virtual.

A soja, a carne e o meu umbigo

Campo de soja no interior do Paraná

Quando estive em Montevideo, em outubro, assisti um ciclo de cinema sobre direitos humanos e indústrias extrativistas. Um dos vídeos exibidos se chama Con la soja al cuello, um documentário uruguaio que retrata a expansão do cultivo de soja transgênica no Uruguai, dando atenção aos malefícios desse mercado. Enquanto assistia, o documentário parecia bom. Havia um diagrama com a cadeia de produção da soja, e o vídeo ia abordando cada uma das partes do processo, contrapondo informações oficiais e discursos políticos com falas de especialistas, filmagens e relatos de pequenos agricultores. Tudo estava muito bem e eu esperava ansiosamente pelo quadro final, que abordaria o consumo. Qual não foi minha surpresa? Ninguém tocou no assunto, a etapa foi completamente ignorada. Depois de toda a discussão sobre a soja, a conclusão do documentário foi, simplesmente, a história de “o governo precisa fazer algo quanto a isso”.

Esse posicionamento não é nem um pouco incomum tanto nesse assunto quanto em qualquer outro – por coincidência, os outros dois documentários da noite também fechavam com a mesma conclusão brilhante. A atitude de aguardar que todas as resoluções sejam tomadas pelo Estado, ao mesmo tempo em que se espera que ele não venha se intrometer na propriedade do cidadão, não combina nem com um socialismo nem com um liberalismo, mas somente com o egocentrismo ou o preguicismo. De maneira geral, as pessoas esperam poder gastar o próprio dinheiro, dar uma volta em seu próprio carro, comprar o seu próprio apartamento e acreditam que sua forma de viver não diz respeito a mais ninguém. Quando, porém, se dão conta de uma realidade sombria, que acontece do lado de fora das suas janelas, o que elas fazem é esperar que um alguém resolva esse problema.

No caso da soja transgênica, por exemplo, é difícil encontrar alguma pessoa que defenda esse mercado. Em geral, as pessoas acham mal, muito mal, toda essa coisa de monocultura, de mega-propriedades, de agrotóxicos, de monopólio de mercado. Porém, o pensamento nunca sai desse âmbito e é por isso que o questionamento, dessa maneira, não funciona. Todo mundo, até o pessoal que faz documentários sobre o assunto, bate muito na tecla da produção, mas esquece que o mercado depende igualmente do consumo. Se essa soja toda está sendo produzida, é porque está sendo consumida e, pior, seu consumo está aumentando.

Evolução da área cultivada de grãos no Brasil (EMBRAPA) – a soja mostra um aumento expressivo

E para onde, afinal, ela vai? A maior parte para fazer ração para a pecuária (cerca de 80%). O resto é utilizado em produtos alimentícios e na produção do biocombustível. Me parece razoável, então, que, para parar com o ciclo da soja transgênica é preciso reduzir drasticamente o consumo desses produtos, especialmente o da carne, que demanda entre sete a dez quilos de grão por quilo produzido.

Não estou dizendo que não se deva exigir uma ação governamental. Mas existe uma diferença imensa entre exigir e aguardar. Aliás, as pouquíssimas pessoas que lutam nessas frentes não só cobram, mas também defendem um modo de vida que comporte seus questionamentos. Usar da culpabilização do governo (que, nesses caso, parece um ente que paira sobre o universo) como coringa de discussão não contribui para o debate, muito menos para alguma mudança efetiva.

Feminista, eu? Não, feminista é ela!

Pelo fato de já ter um tempinho que acesso material feminista, tem alguns assuntos que às vezes me dão a sensação de já se tratarem de ponto pacífico entre as pessoas esclarecidas, já que são largamente discutidos nesse meio. E é por isso que eu sempre me surpreendo quando escuto alguns chavões pra lá de detonados vindo de gente que considero inteligente. Infelizmente, parece que alguns bê-a-bás ainda não estão muito claros ou então não estão chegando aos ouvidos que deveriam. Foi isso que me motivou a estrear o blog com um assunto já um pouco batido entre feministas, mas ainda assim relevante: o uso da palavra ‘feminismo’.

Bingo anti-feminista: quando estiver diante de alguém anti-feminista, relaxe e marque a casa de cada jargão que escutar. Ganha quem preencher tudo (é moleza!)

Quem inventou o feminismo?

Foi no final do século XIX que os movimentos que almejavam a emancipação feminina começaram. Nesse momento, as principais reivindicações eram a igualdade de direitos contratuais, o fim a propriedade, por parte dos homens, de mulheres e crianças e o fim dos casamentos impostos. O palco dessa movimentação foi, sem grande surpresa, a Inglaterra, os Estados Unidos e a França. Eles ainda não tinham um nome, apesar de terem os mesmos objetivos claros.

Não se sabe ao certo quem inventou o termo ‘feminismo’. Há quem diga que foi um termo cunhado pela mídia para designar esses movimentos, outros atribuem a Charles Fourrier, que o teria utilizado em sua obra Quatre Mouvements, publicada em 1808. De qualquer maneira, a invenção, a raiz etimológica ou a definição do dicionário, por mais que possam nos dar dicas em alguns casos, não têm papel determinante no significado de uma palavra e, portanto, não vou dispender esforços em me aprofundar nesse sentido. Parece consenso, porém, que na última década do XIX as palavras ‘feminisme’ e ‘feministe’ já eram de uso corrente na metrópole francesa, sendo usadas tanto pela mídia quanto pelas próprias pessoas que compunham o movimento. O termo ‘feminismo’, portanto, remetia à emancipação feminina e à igualdade de direitos entre homens e mulheres.

O bom e o mau feminismo: o meu feminismo é melhor que o seu

Com a virada do século XX, o movimento feminista teve um crescimento em grande escala. Não só mais pessoas simpatizavam com a causa, mas algumas mídias e pessoas públicas se sentiam pressionadas a assumir uma posição favorável. Por conta disso, começaram a surgir diversas vozes dentro do feminismo, e, portanto, milhares de embates ideológicos. Enquanto existiam feministas que iam às ruas pelo direito da mulher ao voto, tinha quem lutasse pela educação das ‘mães de família’, com o cuidado de não desviá-las de sua ‘missão natural’.

Queremos a mulher companheira do homem, mas esclarecida, apta a ganhar a vida com o trabalho, se fôr necessário, e cultivando o seu talento, se o tiver, mas, repito, desviada dessa corrente feminista, que chegou a afirmar a inferioridade do homem.” (Revista feminina n.54 , novembro de 1918)

O que aconteceu é que o próprio feminismo virou um campo de batalha. Todos  se preocupavam em defender a ideia do progresso e, como o feminismo também era ingrediente desse perfume, as pessoas se precoupavam em assumir-se feministas, mas feministas do seu jeito. Porém, ao invés de inventarem uma nova definição para o seu feminismo, jogavam com acusações aos grupos feministas que não lhes interessavam, como forma de se diferenciar deles. Para desqualificar os outros discursos, algumas estratégias eram usadas, como, por exemplo, dizer que existe um feminismo malvado que prega a inferioridade dos homens em relação às mulheres.

Sou adepta fervorosa do feminismo, não do feminismo que tende a elevar a mulher a um plano superior ao do sexo forte, oferecendo competições desleais ao elemento masculino, na conquista de posições de destaque. Sou adepta do feminismo moderado, cooperador, sensato, do feminismo christão que, pela fé, não desintegra a mulher do lar. (Miriam Leite. O Estado de Minas, 1931)

Colocações como essa eram muito comuns nas primeiras décadas do XX e, de certa forma, ainda hoje são vomitadas por aí, por mais que nunca tenha existido alguma corrente feminista que promovesse o ódio ao sexo masculino.

Cuidado: sufragetes e comunistas vão te assombrar durante a noite

Uma das preocupações que a parcela conservadora brasileira tinha é que a onda de rebeldia feminista explodisse por aqui também. Para evitar essa dor de cabeça, além de tentarem desqualificar a luta feminista com a alegação de que o  país já tinha postura feminista e, portanto, a revolta não tinha razão de ser, atiçaram ainda mais o demônio do ‘feminismo malvado’, utilizando monstros da política internacional, para assustar os possíveis indivíduos adeptos.

Sobre esse primeiro ponto, existe um trecho de um artigo de Anna Rita Malheiros que, apesar de não ser o único exemplo, é bem ilustrativo:

Que o feminismo brasileiro existe é facto inconcusso, basta visitar nossos departamentos de sciencias, de letras, de magistério, de comercio, de negócios públicos e nossas officinas e indústrias, para se vêr a mulher brasileira transformada em força útil e reproductora depois de vinte séculos de inacção.” (Revista Feminina n.89 outubro de 1921)

Quanto ao segundo ponto, é importante ter em mente que, nessa época, as sufragetes (mulheres a favor do voto) estão tomando as ruas europeias ao mesmo tempo em que socialismo está se expandindo. Por essas serem coisas que o público, em geral, não tinha tanta relutância em temer, elas eram um prato cheio para desencorajar os potenciais propagadores da ‘desordem’. Cuidado, se inventar de ser feminista demais, vai acabar virando arruaceira ou então comunista.

Manifestação sufragista em Paris, 1914

Fica quieta, menina, feminismo é coisa de burguesa feia

Do outro lado da moeda, comunistas também se preocupavam com o avanço do movimento feminista. Logicamente, o sexismo não era propagado somente por capitalistas, ele continuava com bases fortes tanto entre comunistas como entre anarquistas – aliás, por mais que muitas correntes de esquerda tenham o costume de esquecer, o patriarcado e suas imposições estão aí bem antes da propriedade privada. O que fazemos, então? Ora, dizemos que o feminismo não passa de uma preocupação burguesa, que a luta contra o capital é mais importante e, portanto, esses questionamentos são pura distração (notem que aqui estou usando o presente).

A teoria queer

Talvez pareça um salto na história, mas, como vimos até aqui, ainda não houve de fato uma discussão sobre o significado do termo ‘feminismo’, o que aconteceram foram acusações por pessoas (que se diziam feministas ou não) de que determinados grupos incitassem o ódio a homens. No fim das contas, para cada uma das pessoas feministas, o seu feminismo continuava significando emancipação da mulher, ou igualdade de direitos entre homens e mulheres.

O primeiro questionamento de fato vem por volta dos anos 90, quando a discussão sobre gênero ganha mais espaço, muito por conta da teoria queer, que vinha atraindo intelectuais desde a década anterior. Em linhas gerais, a teoria queer defende que a identidade de gênero é resultado de uma construção social, e não tem ligação biológica com os indivíduos. Por conta disso, essa corrente se recusa a categorizar as pessoas como ‘homens’ ou ‘mulheres’, alegando que existem milhares de variações culturais e que nenhuma delas pode ser tida como padrão ou como anômala. E é aí que vem o entrave com o feminismo: se o feminismo luta pela a igualdade de direito das mulheres em relação aos homens, então ele acaba caindo no velho reducionismo binário, e sendo, inclusive, por essa nova perspectiva, sexista.

Talvez o esperado fosse que esses dois movimentos batessem de frente, se dividissem, causassem polêmica (mais do que já causam sozinhos), mas não foi isso que aconteceu. Várias das feministas contemporâneas também compartilhavam das ideias queer, aliás, essas duas correntes têm um grande número de intelectuais em sua intersecção, que acabam escrevendo sobre as duas coisas, já que são, praticamente, pedaços da mesma torta. O que aconteceu então foi que as pessoas que escrevem, discutem e agem no âmbito do feminismo começaram a tratá-lo como luta pela igualdade de gêneros.

E isso muda muita coisa? Bom, muda sim, e pretendo um dia tratar melhor desse assunto (que é interessantíssimo e dá muito o que falar). Mas o que não muda é que a luta continua sendo contra o sexismo, ou seja, contra a superioridade de um gênero. Portanto, para fins dessa discussão, podemos dizer que as lutas feministas continuaram semelhantes.

Concordo plenamente com tudo… Mas, deus me livre das feministas

O engraçado é que, se em alguma época era importante ser feminista, mesmo que de uma maneira muito cuidadosa e cheia de poréns, hoje em dia é o contrário: ser feminista pega mal. É incrível (e aqui voltamos ao início do texto) como pessoas que tem ideias claramente anti sexistas, além de nunca, de jeito nenhum, se considerarem feministas, ainda parecem usar esse nome como uma espécie de xingamento.

Lembro-me da Marcha das Vadias, que uma das organizadoras de São Paulo disse “não somos feministas, somos femininas”. Me pergunto o que é que ser contra a superioridade de gênero faz de mal com a feminilidade. De certo, deve deixar menos sexy, ainda mais se pensar que tem feminista que não se depila, né? Melhor manter distância! O que essas pessoas não entendem (ok, elas não entendem muita coisa, mas vamos direto ao ponto) é que uma das lutas do feminismo e, inclusive, da Marcha das Vadias, é pela liberdade da pessoa sobre seu próprio corpo. Desculpe decepcionar vocês, mas ser feminista não vai engrossar a voz de nenhuma garota ou fazer cair o genital de algum rapaz, a menos, é claro, que eles queiram.

Marcha das Vadias em São Paulo, 2011

O que me espanta é que isso não deveria ser tão difícil de perceber assim, afinal, essa estratégia de desqualificar o discurso do outro através de mentirinhas aterrorizantes não é nenhuma novidade, acho que qualquer um deve lembrar dos russos que comiam criancinhas ou do candidato a presidência que iria te obrigar a recolher mendigos em casa. Se, nesses casos, era importante assustar as pessoas através da ameaça financeira e familiar, parece que no caso do feminismo é mais eficiente usar a estratégia da diminuição do sexy appeal e do preconceito e violência contra o gênero masculino (que é um troço que acontece o tempo todo, né?).

É lógico que esses absurdos não aparecem do nada, espero que isso tenha ficado claro nesse pequeno levantamento histórico que expus aqui. Dentro do movimento feminista, há poucas divergências quanto ao ‘significado’ de feminismo. Parece bem claro, pras pessoas que estão ali dentro, que elas brigam por uma sociedade anti sexista, e isto basta para se considerarem, pelo menos, dentro de uma mesma luta ampla.

O feminismo que prega um determinado padrão estético para as mulheres ou que as obriga a serem lésbicas, não passa de história da carochinha. Da mesma forma que o feminismo como ódio ao homem nunca existiu, a não ser na boca daqueles que, por alguma razão não muito complexa, se sentem ameaçados com a possibilidade de uma sociedade não patriarcal. Infelizmente, na hora de propagar essas ideias tortas, não são só esses indivíduos que contribuem, elas também correm na língua de muita gente que, apesar de não ser lá tão desinformada, ainda acredita em bicho papão.