Monthly Archives: Janeiro 2012

Ameaça à liberdade na internet

Nesse momento, no congresso americano, dois projetos de lei contra pirataria estão sendo discutidos. Porém, diferente de outros intermedios legais americanos sobre o tema, essas leis, se aprovadas, terão um campo de ação tão amplo e inespecífico, que sites como a Wikipédia, por exemplo, facilmente seriam enquadrados e sairiam do ar, assim como qualquer lugar que publicasse links para essa página (buscadores ou redes sociais, por exemplo).

Por conta disso, diversos sítios tem protestado. Alguns, como a wikipedia, tiraram sua página do ar, outros, como o wordpress e o riseup, usaram como capa chamadas (tão criativas quanto apocalípticas) contra os projetos de lei, e até os mais tímidos, como o google, não deixaram de escrever uma nota de rodapé.

Disfarçados com uma máscara de antipirataria, e aproveitando essa onda de paranóia coletiva, esses projetos, se aprovados, colocarão em prática a censura generalizada do meio virtual.

A soja, a carne e o meu umbigo

Campo de soja no interior do Paraná

Quando estive em Montevideo, em outubro, assisti um ciclo de cinema sobre direitos humanos e indústrias extrativistas. Um dos vídeos exibidos se chama Con la soja al cuello, um documentário uruguaio que retrata a expansão do cultivo de soja transgênica no Uruguai, dando atenção aos malefícios desse mercado. Enquanto assistia, o documentário parecia bom. Havia um diagrama com a cadeia de produção da soja, e o vídeo ia abordando cada uma das partes do processo, contrapondo informações oficiais e discursos políticos com falas de especialistas, filmagens e relatos de pequenos agricultores. Tudo estava muito bem e eu esperava ansiosamente pelo quadro final, que abordaria o consumo. Qual não foi minha surpresa? Ninguém tocou no assunto, a etapa foi completamente ignorada. Depois de toda a discussão sobre a soja, a conclusão do documentário foi, simplesmente, a história de “o governo precisa fazer algo quanto a isso”.

Esse posicionamento não é nem um pouco incomum tanto nesse assunto quanto em qualquer outro – por coincidência, os outros dois documentários da noite também fechavam com a mesma conclusão brilhante. A atitude de aguardar que todas as resoluções sejam tomadas pelo Estado, ao mesmo tempo em que se espera que ele não venha se intrometer na propriedade do cidadão, não combina nem com um socialismo nem com um liberalismo, mas somente com o egocentrismo ou o preguicismo. De maneira geral, as pessoas esperam poder gastar o próprio dinheiro, dar uma volta em seu próprio carro, comprar o seu próprio apartamento e acreditam que sua forma de viver não diz respeito a mais ninguém. Quando, porém, se dão conta de uma realidade sombria, que acontece do lado de fora das suas janelas, o que elas fazem é esperar que um alguém resolva esse problema.

No caso da soja transgênica, por exemplo, é difícil encontrar alguma pessoa que defenda esse mercado. Em geral, as pessoas acham mal, muito mal, toda essa coisa de monocultura, de mega-propriedades, de agrotóxicos, de monopólio de mercado. Porém, o pensamento nunca sai desse âmbito e é por isso que o questionamento, dessa maneira, não funciona. Todo mundo, até o pessoal que faz documentários sobre o assunto, bate muito na tecla da produção, mas esquece que o mercado depende igualmente do consumo. Se essa soja toda está sendo produzida, é porque está sendo consumida e, pior, seu consumo está aumentando.

Evolução da área cultivada de grãos no Brasil (EMBRAPA) – a soja mostra um aumento expressivo

E para onde, afinal, ela vai? A maior parte para fazer ração para a pecuária (cerca de 80%). O resto é utilizado em produtos alimentícios e na produção do biocombustível. Me parece razoável, então, que, para parar com o ciclo da soja transgênica é preciso reduzir drasticamente o consumo desses produtos, especialmente o da carne, que demanda entre sete a dez quilos de grão por quilo produzido.

Não estou dizendo que não se deva exigir uma ação governamental. Mas existe uma diferença imensa entre exigir e aguardar. Aliás, as pouquíssimas pessoas que lutam nessas frentes não só cobram, mas também defendem um modo de vida que comporte seus questionamentos. Usar da culpabilização do governo (que, nesses caso, parece um ente que paira sobre o universo) como coringa de discussão não contribui para o debate, muito menos para alguma mudança efetiva.

Feminista, eu? Não, feminista é ela!

Pelo fato de já ter um tempinho que acesso material feminista, tem alguns assuntos que às vezes me dão a sensação de já se tratarem de ponto pacífico entre as pessoas esclarecidas, já que são largamente discutidos nesse meio. E é por isso que eu sempre me surpreendo quando escuto alguns chavões pra lá de detonados vindo de gente que considero inteligente. Infelizmente, parece que alguns bê-a-bás ainda não estão muito claros ou então não estão chegando aos ouvidos que deveriam. Foi isso que me motivou a estrear o blog com um assunto já um pouco batido entre feministas, mas ainda assim relevante: o uso da palavra ‘feminismo’.

Bingo anti-feminista: quando estiver diante de alguém anti-feminista, relaxe e marque a casa de cada jargão que escutar. Ganha quem preencher tudo (é moleza!)

Quem inventou o feminismo?

Foi no final do século XIX que os movimentos que almejavam a emancipação feminina começaram. Nesse momento, as principais reivindicações eram a igualdade de direitos contratuais, o fim a propriedade, por parte dos homens, de mulheres e crianças e o fim dos casamentos impostos. O palco dessa movimentação foi, sem grande surpresa, a Inglaterra, os Estados Unidos e a França. Eles ainda não tinham um nome, apesar de terem os mesmos objetivos claros.

Não se sabe ao certo quem inventou o termo ‘feminismo’. Há quem diga que foi um termo cunhado pela mídia para designar esses movimentos, outros atribuem a Charles Fourrier, que o teria utilizado em sua obra Quatre Mouvements, publicada em 1808. De qualquer maneira, a invenção, a raiz etimológica ou a definição do dicionário, por mais que possam nos dar dicas em alguns casos, não têm papel determinante no significado de uma palavra e, portanto, não vou dispender esforços em me aprofundar nesse sentido. Parece consenso, porém, que na última década do XIX as palavras ‘feminisme’ e ‘feministe’ já eram de uso corrente na metrópole francesa, sendo usadas tanto pela mídia quanto pelas próprias pessoas que compunham o movimento. O termo ‘feminismo’, portanto, remetia à emancipação feminina e à igualdade de direitos entre homens e mulheres.

O bom e o mau feminismo: o meu feminismo é melhor que o seu

Com a virada do século XX, o movimento feminista teve um crescimento em grande escala. Não só mais pessoas simpatizavam com a causa, mas algumas mídias e pessoas públicas se sentiam pressionadas a assumir uma posição favorável. Por conta disso, começaram a surgir diversas vozes dentro do feminismo, e, portanto, milhares de embates ideológicos. Enquanto existiam feministas que iam às ruas pelo direito da mulher ao voto, tinha quem lutasse pela educação das ‘mães de família’, com o cuidado de não desviá-las de sua ‘missão natural’.

Queremos a mulher companheira do homem, mas esclarecida, apta a ganhar a vida com o trabalho, se fôr necessário, e cultivando o seu talento, se o tiver, mas, repito, desviada dessa corrente feminista, que chegou a afirmar a inferioridade do homem.” (Revista feminina n.54 , novembro de 1918)

O que aconteceu é que o próprio feminismo virou um campo de batalha. Todos  se preocupavam em defender a ideia do progresso e, como o feminismo também era ingrediente desse perfume, as pessoas se precoupavam em assumir-se feministas, mas feministas do seu jeito. Porém, ao invés de inventarem uma nova definição para o seu feminismo, jogavam com acusações aos grupos feministas que não lhes interessavam, como forma de se diferenciar deles. Para desqualificar os outros discursos, algumas estratégias eram usadas, como, por exemplo, dizer que existe um feminismo malvado que prega a inferioridade dos homens em relação às mulheres.

Sou adepta fervorosa do feminismo, não do feminismo que tende a elevar a mulher a um plano superior ao do sexo forte, oferecendo competições desleais ao elemento masculino, na conquista de posições de destaque. Sou adepta do feminismo moderado, cooperador, sensato, do feminismo christão que, pela fé, não desintegra a mulher do lar. (Miriam Leite. O Estado de Minas, 1931)

Colocações como essa eram muito comuns nas primeiras décadas do XX e, de certa forma, ainda hoje são vomitadas por aí, por mais que nunca tenha existido alguma corrente feminista que promovesse o ódio ao sexo masculino.

Cuidado: sufragetes e comunistas vão te assombrar durante a noite

Uma das preocupações que a parcela conservadora brasileira tinha é que a onda de rebeldia feminista explodisse por aqui também. Para evitar essa dor de cabeça, além de tentarem desqualificar a luta feminista com a alegação de que o  país já tinha postura feminista e, portanto, a revolta não tinha razão de ser, atiçaram ainda mais o demônio do ‘feminismo malvado’, utilizando monstros da política internacional, para assustar os possíveis indivíduos adeptos.

Sobre esse primeiro ponto, existe um trecho de um artigo de Anna Rita Malheiros que, apesar de não ser o único exemplo, é bem ilustrativo:

Que o feminismo brasileiro existe é facto inconcusso, basta visitar nossos departamentos de sciencias, de letras, de magistério, de comercio, de negócios públicos e nossas officinas e indústrias, para se vêr a mulher brasileira transformada em força útil e reproductora depois de vinte séculos de inacção.” (Revista Feminina n.89 outubro de 1921)

Quanto ao segundo ponto, é importante ter em mente que, nessa época, as sufragetes (mulheres a favor do voto) estão tomando as ruas europeias ao mesmo tempo em que socialismo está se expandindo. Por essas serem coisas que o público, em geral, não tinha tanta relutância em temer, elas eram um prato cheio para desencorajar os potenciais propagadores da ‘desordem’. Cuidado, se inventar de ser feminista demais, vai acabar virando arruaceira ou então comunista.

Manifestação sufragista em Paris, 1914

Fica quieta, menina, feminismo é coisa de burguesa feia

Do outro lado da moeda, comunistas também se preocupavam com o avanço do movimento feminista. Logicamente, o sexismo não era propagado somente por capitalistas, ele continuava com bases fortes tanto entre comunistas como entre anarquistas – aliás, por mais que muitas correntes de esquerda tenham o costume de esquecer, o patriarcado e suas imposições estão aí bem antes da propriedade privada. O que fazemos, então? Ora, dizemos que o feminismo não passa de uma preocupação burguesa, que a luta contra o capital é mais importante e, portanto, esses questionamentos são pura distração (notem que aqui estou usando o presente).

A teoria queer

Talvez pareça um salto na história, mas, como vimos até aqui, ainda não houve de fato uma discussão sobre o significado do termo ‘feminismo’, o que aconteceram foram acusações por pessoas (que se diziam feministas ou não) de que determinados grupos incitassem o ódio a homens. No fim das contas, para cada uma das pessoas feministas, o seu feminismo continuava significando emancipação da mulher, ou igualdade de direitos entre homens e mulheres.

O primeiro questionamento de fato vem por volta dos anos 90, quando a discussão sobre gênero ganha mais espaço, muito por conta da teoria queer, que vinha atraindo intelectuais desde a década anterior. Em linhas gerais, a teoria queer defende que a identidade de gênero é resultado de uma construção social, e não tem ligação biológica com os indivíduos. Por conta disso, essa corrente se recusa a categorizar as pessoas como ‘homens’ ou ‘mulheres’, alegando que existem milhares de variações culturais e que nenhuma delas pode ser tida como padrão ou como anômala. E é aí que vem o entrave com o feminismo: se o feminismo luta pela a igualdade de direito das mulheres em relação aos homens, então ele acaba caindo no velho reducionismo binário, e sendo, inclusive, por essa nova perspectiva, sexista.

Talvez o esperado fosse que esses dois movimentos batessem de frente, se dividissem, causassem polêmica (mais do que já causam sozinhos), mas não foi isso que aconteceu. Várias das feministas contemporâneas também compartilhavam das ideias queer, aliás, essas duas correntes têm um grande número de intelectuais em sua intersecção, que acabam escrevendo sobre as duas coisas, já que são, praticamente, pedaços da mesma torta. O que aconteceu então foi que as pessoas que escrevem, discutem e agem no âmbito do feminismo começaram a tratá-lo como luta pela igualdade de gêneros.

E isso muda muita coisa? Bom, muda sim, e pretendo um dia tratar melhor desse assunto (que é interessantíssimo e dá muito o que falar). Mas o que não muda é que a luta continua sendo contra o sexismo, ou seja, contra a superioridade de um gênero. Portanto, para fins dessa discussão, podemos dizer que as lutas feministas continuaram semelhantes.

Concordo plenamente com tudo… Mas, deus me livre das feministas

O engraçado é que, se em alguma época era importante ser feminista, mesmo que de uma maneira muito cuidadosa e cheia de poréns, hoje em dia é o contrário: ser feminista pega mal. É incrível (e aqui voltamos ao início do texto) como pessoas que tem ideias claramente anti sexistas, além de nunca, de jeito nenhum, se considerarem feministas, ainda parecem usar esse nome como uma espécie de xingamento.

Lembro-me da Marcha das Vadias, que uma das organizadoras de São Paulo disse “não somos feministas, somos femininas”. Me pergunto o que é que ser contra a superioridade de gênero faz de mal com a feminilidade. De certo, deve deixar menos sexy, ainda mais se pensar que tem feminista que não se depila, né? Melhor manter distância! O que essas pessoas não entendem (ok, elas não entendem muita coisa, mas vamos direto ao ponto) é que uma das lutas do feminismo e, inclusive, da Marcha das Vadias, é pela liberdade da pessoa sobre seu próprio corpo. Desculpe decepcionar vocês, mas ser feminista não vai engrossar a voz de nenhuma garota ou fazer cair o genital de algum rapaz, a menos, é claro, que eles queiram.

Marcha das Vadias em São Paulo, 2011

O que me espanta é que isso não deveria ser tão difícil de perceber assim, afinal, essa estratégia de desqualificar o discurso do outro através de mentirinhas aterrorizantes não é nenhuma novidade, acho que qualquer um deve lembrar dos russos que comiam criancinhas ou do candidato a presidência que iria te obrigar a recolher mendigos em casa. Se, nesses casos, era importante assustar as pessoas através da ameaça financeira e familiar, parece que no caso do feminismo é mais eficiente usar a estratégia da diminuição do sexy appeal e do preconceito e violência contra o gênero masculino (que é um troço que acontece o tempo todo, né?).

É lógico que esses absurdos não aparecem do nada, espero que isso tenha ficado claro nesse pequeno levantamento histórico que expus aqui. Dentro do movimento feminista, há poucas divergências quanto ao ‘significado’ de feminismo. Parece bem claro, pras pessoas que estão ali dentro, que elas brigam por uma sociedade anti sexista, e isto basta para se considerarem, pelo menos, dentro de uma mesma luta ampla.

O feminismo que prega um determinado padrão estético para as mulheres ou que as obriga a serem lésbicas, não passa de história da carochinha. Da mesma forma que o feminismo como ódio ao homem nunca existiu, a não ser na boca daqueles que, por alguma razão não muito complexa, se sentem ameaçados com a possibilidade de uma sociedade não patriarcal. Infelizmente, na hora de propagar essas ideias tortas, não são só esses indivíduos que contribuem, elas também correm na língua de muita gente que, apesar de não ser lá tão desinformada, ainda acredita em bicho papão.