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Binarismos: Natural x Artificial

Esse artigo talvez seja o início de uma série que tratará sobre binarismos – essa tendência que temos de enxergar as coisas como pares de opostos. Além dessa mania ser bem limitadora, não são raras as vezes em que, com a ajuda do maniqueísmo (que também é binário), utilizamos esses códigos somente com o intuito de deslegitimar algo ou alguém, de maneira rasa e irredutível.

Natural x artificial

Talvez eu devesse começar definindo o que é artificial e o que é natural. Não o farei por dois motivos, primeiro porque esses dois conceitos só existem em oposição um ao outro e segundo porque eles são usados com objetivos  específicos e, portanto, de uma maneira bem maleável. Como minha intenção aqui não é construir um significado conciso para aplicá-lo posteriormente, mas sim analisar a forma como esse artifício é utilizado, não faz o menor sentido perder tempo com tais definições. Ao invés disso, tentarei me aproximar do que usualmente é considerado ‘natural’ e ‘artificial’, para, justamente, apontar a falta de concisão que as pessoas que os utilizam apresentam.

Quando alguém diz que algo é ‘natural’ imediatamente somos remetidos a algum aspecto ou comportamento da ‘natureza’. Apesar de muita gente acreditar que já superamos o pensamento judaico-cristão estrito, a ideia de natureza ainda está muito relacionada à criação do universo bíblico: o mundo perfeito, intocado e belo, antes do ser humano aparecer e impôr uma nova ordem. Essa nova ordem (ou desordem) é essencialmente ruim, pelo motivo óbvio de que é diferente da anterior, que seria essencialmente boa. Aqui começamos a perceber como ‘natureza’ ou ‘natural’ só fazem sentido em comparação ao ‘não natural’, assim como o ‘bom’ e o ‘ruim’ quando relacionados a um par binário como esse.

Paraíso – Roelandt Savery

Ok. Dito isto, vamos pensar no que, hoje em dia, é considerado ‘não natural’ ou ‘artificial’. Para nos afastarmos um pouco da perspectiva religiosa declarada, podemos dizer que ‘artificial’ é o conjunto de coisas e comportamentos feitos por seres humanos. Certo?

Errado. Existem muitas coisas feitas pelos seres humanos que são consideradas ‘naturais’. Além daquelas óbvias como comer e dormir, existem outras que frequentemente obtém esse título sem serem muito questionadas. Uma delas é a heterossexualidade. Por quê? Bom, como todas essas coisas ditas ‘naturais’, a explicação sempre vem ou de uma perspectiva religiosa declarada ou de uma visão pontual e não científica sobre a biologia (frequentemente referenciada por gente que nunca estudou nada do assunto) que, na verdade, pouca diferença têm entre si, pois são baseadas na mesma premissa da natureza sumo-bem (intocável, perfeita e essencialmente boa).

O que as pessoas que atuam nessas duas correntes tentam fazer é primeiro argumentar que determinado aspecto é natural para então convencer, por consequência imediata, que aquilo é bom e deve ser mantido ou retomado. Porém, o que elas acabam fazendo é primeiro se convencendo de que determinado aspecto é bom e deve ser mantido ou retomado para, então, buscar argumentos que convençam de que aquilo é natural. Parece um contrassenso, não?

Bem, seria um contrassenso se a intenção fosse realmente explicar alguma coisa, mas, em geral, o que se pretende é desqualificar certa característica ao mesmo tempo que se legitima outra, emitindo, dessa forma, um julgamento irredutível.

Na maior parte das vezes, essa estratégia é utilizada para manter os privilégios de determinado grupo. Esse é o caso do exemplo citado sobre a suposta ‘naturalidade’ da heterossexualidade,  como era (ou é?) o caso da suposta supremacia de raça, ou de outras infinitas baboseiras da psicologia evolucionista.

Bingo da psicologia evolucionista

Porém, esse binarismo maniqueísta também aparece com frequência na argumentação de grupos oprimidos. Existem feministas, por exemplo, que creem tanto na ‘natureza’ feminina quanto os machistas que as oprimem. Em alguns lugares, já ouvi argumentos contra a maquiagem e a depilação que são mais baseados na ‘naturalidade’ do rosto limpo e dos pelos corporais que na luta contra a imposição violenta de sua prática. Os grupos que defendem o parto natural também não ficam para trás, muitas vezes acusando as mulheres que escolhem a cesárea por ser um método ‘artificial’ de nascimento. E até quando se fala em favor do aborto essas bobagens aparecem.

Mas provavelmente o melhor exemplo de todos é a discussão sobre hábitos alimentares. Quem já acompanhou conversas sobre vegetarianismo provavelmente deve saber que um dos argumentos que mais rola é sobre a ‘natureza’ da alimentação humana. E nem dá pra saber quem é que o invoca com mais frequência, se são os ornívoros ou os vegetarianos.

Complete o discurso de acordo com seu almoço

Complete o discurso acima de acordo com seu almoço

Por fim, proponho um exercício que eu mesma ainda não internalizei o suficiente para não precisar mais de esforço. Toda vez que alguém julgar alguma ação sua com base na dicotomia natural x artificial, ao invés de perder tempo tentando justificar como sua posição é mais natural que a da outra pessoa, exponha essa dicotomia para ela e a destrua. Se for você quem estiver julgando algo dessa forma, então pare, respire, e tente achar pelo menos uma boa razão para tal conclusão. Se você não encontrar, então pode jogar seu pré conceito no lixo e começar a construir um novo.