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A soja, a carne e o meu umbigo

Campo de soja no interior do Paraná

Quando estive em Montevideo, em outubro, assisti um ciclo de cinema sobre direitos humanos e indústrias extrativistas. Um dos vídeos exibidos se chama Con la soja al cuello, um documentário uruguaio que retrata a expansão do cultivo de soja transgênica no Uruguai, dando atenção aos malefícios desse mercado. Enquanto assistia, o documentário parecia bom. Havia um diagrama com a cadeia de produção da soja, e o vídeo ia abordando cada uma das partes do processo, contrapondo informações oficiais e discursos políticos com falas de especialistas, filmagens e relatos de pequenos agricultores. Tudo estava muito bem e eu esperava ansiosamente pelo quadro final, que abordaria o consumo. Qual não foi minha surpresa? Ninguém tocou no assunto, a etapa foi completamente ignorada. Depois de toda a discussão sobre a soja, a conclusão do documentário foi, simplesmente, a história de “o governo precisa fazer algo quanto a isso”.

Esse posicionamento não é nem um pouco incomum tanto nesse assunto quanto em qualquer outro – por coincidência, os outros dois documentários da noite também fechavam com a mesma conclusão brilhante. A atitude de aguardar que todas as resoluções sejam tomadas pelo Estado, ao mesmo tempo em que se espera que ele não venha se intrometer na propriedade do cidadão, não combina nem com um socialismo nem com um liberalismo, mas somente com o egocentrismo ou o preguicismo. De maneira geral, as pessoas esperam poder gastar o próprio dinheiro, dar uma volta em seu próprio carro, comprar o seu próprio apartamento e acreditam que sua forma de viver não diz respeito a mais ninguém. Quando, porém, se dão conta de uma realidade sombria, que acontece do lado de fora das suas janelas, o que elas fazem é esperar que um alguém resolva esse problema.

No caso da soja transgênica, por exemplo, é difícil encontrar alguma pessoa que defenda esse mercado. Em geral, as pessoas acham mal, muito mal, toda essa coisa de monocultura, de mega-propriedades, de agrotóxicos, de monopólio de mercado. Porém, o pensamento nunca sai desse âmbito e é por isso que o questionamento, dessa maneira, não funciona. Todo mundo, até o pessoal que faz documentários sobre o assunto, bate muito na tecla da produção, mas esquece que o mercado depende igualmente do consumo. Se essa soja toda está sendo produzida, é porque está sendo consumida e, pior, seu consumo está aumentando.

Evolução da área cultivada de grãos no Brasil (EMBRAPA) – a soja mostra um aumento expressivo

E para onde, afinal, ela vai? A maior parte para fazer ração para a pecuária (cerca de 80%). O resto é utilizado em produtos alimentícios e na produção do biocombustível. Me parece razoável, então, que, para parar com o ciclo da soja transgênica é preciso reduzir drasticamente o consumo desses produtos, especialmente o da carne, que demanda entre sete a dez quilos de grão por quilo produzido.

Não estou dizendo que não se deva exigir uma ação governamental. Mas existe uma diferença imensa entre exigir e aguardar. Aliás, as pouquíssimas pessoas que lutam nessas frentes não só cobram, mas também defendem um modo de vida que comporte seus questionamentos. Usar da culpabilização do governo (que, nesses caso, parece um ente que paira sobre o universo) como coringa de discussão não contribui para o debate, muito menos para alguma mudança efetiva.