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Pornografia feminista

Erika Lust - diretora

Há quase um ano, me deparei com um termo até então desconhecido para mim: pornografia feminista. A informação me chegou através de uma matéria da revista Época, que recebi por e-mail de uma amiga. Me interessei muito pelo assunto e comecei a buscar mais informações, mas mesmo depois de pesquisar e assistir a vários filmes ainda tenho a sensação de que caminho com com os pés bambos, principalmente porque pouco se discute o tema fora do círculo das próprias produtoras dos filmes. E é por isso que resolvi escrever esse artigo, para que mais gente possa entrar no debate e contribuir.

Pornografia sob uma nova perspectiva

Muito se fala do pornô tradicional e sua grande e inegável contribuição para a objetificação da mulher. Mais que isso, a pornografia mainstream, ao reforçar certos esteriótipos de gênero, acaba funcionando como catalisador da violência contra a mulher, especialmente no que toca à violência sexual (ver: pornografia como teoria, estupro como prática). E é em cima dessa construção que grupos feministas contra a pornografia se formam e militam.

Porém, devemos ter clareza que o problema da pornografia tradicional não é o sexo explícito, os corpos nus ou os closes ginecológicos; o problema é a maneira violenta e degradante que a mulher é retratada. Ou seja, o problema não é a pornografia, mas sim o machismo. É importante deixar isso claro para não cairmos em um discurso pudico, que acaba adotando uma posição anti-sexo ao invés de anti-sexista. Afinal, não será com burcas, cobrindo a mulher da cabeça aos pés, que o machismo será resolvido.

É nesse universo que o termo (que eu não gosto muito) “pornografia feminista” surge. Aliás, sua origem é concomitante à criação do “prêmio da pornografia feminista” (Feminist Porn Awards) por um sex-shop canadense, e é quase inexistente fora desse meio. Segundo o sítio das criadoras do evento, os critérios para a seleção dos vídeos são:

1) Devem contar com uma mulher na produção, roteiro, direção, etc. do trabalho;

2)Devem despertar o genuíno prazer feminino; e

3)Devem expandir os limites da representação sexual e desafiar os esteriótipos do pornô mainstream.

Portanto, o objetivo é claro: criação e incentivo a uma pornografia produzida por mulheres e destinada (necessariamente, porém não exclusivamente) a elas, questionando e oferecendo uma alternativa ao pornô tradicional.

Novos olhares, antigas relações de mercado

É inegável que a pornografia está carente de novos ângulos de visão. Mais que isso, é preciso combater o machismo que a permeia e desconstruir a ideia de que ele é inerente à representação cinematográfica do sexo. Sem dúvidas, a “pornografia feminista” desempenha esses papéis, e quanto a isso não tenho o que reclamar. Porém, ao contrário de algumas análises deslumbradas que tenho visto por aí, não dá para fechar os olhos e achar que o novo pornô é a salvação do planeta.

Apesar de pretender expandir os limites da representação sexual, o Feminist Porn Awards ainda se baseia na divisão binária de gêneros, quando assume que o único oposto a uma produção e público de homens, é uma produção e público de mulheres. Pior: uma das categorias de premiação se chama justamente “categoria queer“, o que revela que esse posicionamento não é fruto de ignorância, mas sim de uma escolha calculada. Em outras palavras, desconsidera-se a discussão de múltiplos gêneros para abrir uma caixinha onde ela pode ser escondida. (quem ficou por fora por não conhecer a discussão queer, dê uma olhada  aqui e aqui)

Além disso, o “pornô feminista” se propõe a desconstruir a representação degradante da mulher, ninguém falou em questionar padrões de beleza. Mesmo que não se veja atrizes ao estilo mainstream e que alguns vídeos (quase todos na categoria queer) retratem pessoas fora do padrão estético dominante, a grande maioria somente o reproduz.

Ademais, não podemos esquecer que o termo foi inventado por um sex-shop e, portanto, tem o intuito de fazer dinheiro. Não é nem um pouco raro encontrar, inclusive, diretoras que considerem a nova produção pornográfica como simples resposta à demanda de um novo mercado.

Feminist Porn Awards 2011

Onde encontrar os vídeos

Quem se interessar pelo assunto, provavelmente descobrirá quão difícil é encontrar os vídeos disponíveis na internet. Como trata-se de uma produção e consumo pequenos, há pouca coisa circulando fora do canadá e/ou gratuitamente. Mas, para poupar o trabalho de vocês, aqui está um blog que tem bastante material.